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Os agrotóxicos são compostos de uma substância ou a mistura de substâncias naturais ou sintéticas destinadas a prevenir, destruir, controlar ou inibir qualquer praga, sejam elas insetos, roedores, fungos, ervas ou outras plantas indesejáveis ou destinadas a ser reguladora da vida vegetal.

Existe uma série de denominações para classificarmos os agrotóxicos, desde agroquímicos, pesticidas, praguicida, biocidas ou qualquer outra que é utilizado como um defensivo agrícola. Muitos das que estão aqui denominadas foram encontradas em grande parte das amostras que compõem as fontes de águas potáveis que abastecem o Brasil.

No Estado de São Paulo, em 2018, sabíamos que apenas 3% de seus rios estavam limpos segundo um estudo da SOS Mata Atlântica. A poluição estava presente em 41 rios do Estado, que, então, são considerados indisponíveis para atividades como abastecimento humano, produção de alimentos, pesca e lazer. E os principais fatores que colaboraram para isto, quando não era o esgoto doméstico não tratados que eram despejados nos rios, eram culpa dos agrotóxicos.

A utilização de tais compostos com muita frequência não fazem apenas mal a saúde, mas, também, fazem com que surjam novas superpragas. Podemos exemplificar como o surgimento de ervas daninhas mais resistentes ou, mesmo, insetos mais resistentes aos diferentes tipos de defensivos agrícolas. Este é um exemplo clássico, tal como o surgimento de bactérias que desenvolvem maior resistência à utilização de antibióticos.

“Quanto mais gente, mais esgoto… Nas regiões de pecuária intensiva, o problema é pior ainda. As águas recebem grandes quantidades de dejetos, resíduos de agrotóxicos e de medicamentos utilizados nas granjas. Também por isto nossos rios estão totalmente poluídos”, explica Sonia Corina Hess, que é engenheira química e professora titular do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A CONTAMINAÇÃO É GERAL

Na área vermelha do mapa acima é possível ver que quase a totalidade do Estado de São Paulo está com a água contaminada por agrotóxicos. Onde o vermelho, no mapa, é mais escuro, quer dizer que, na água, foram encontrados todos os 27 tipos de agrotóxicos que são verificados por requisito da legislação. Não é só Itirapina ou somente o Estado de São Paulo. A contaminação, no Brasil, é incrivelmente alta.

Temos vários exemplos da contaminação de rios e lagos que abastecem cidades ou lavouras ao redor ou próximas à Itirapina. Um dos exemplos é o da cidade de Araraquara, onde foi feito um estudo, pelo pesquisador Raphael DAnna Acayaba, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que apontou que pelo menos dois rios de Araraquara estão contaminados com agrotóxicos utilizados no cultivo da cana-de-açúcar. Ele se baseou nos produtos mais utilizados no estado e seus impactos em corpos dágua localizados nas grandes regiões de cultivo.

As amostras foram retiradas dos rios Jacaré-Guaçu, no trecho que liga Boa Esperança do Sul a Araraquara, e do Rio do Ouro, cujas amostras foram coletadas no ponto da rodovia SP-255, no trecho próximo à Estação de Tratamento de Esgotos (Ete).

Na cidade de Santa Cruz da Conceição, dias atrás, milhares de abelhas morreram, sendo que o principal suspeito disto é o uso ostensivo de agrotóxicos na região. O pesquisador da Unesp de Rio Claro, Osmar Malaspina, em entrevista ao G1, afirmou: “Quando uma colônia de abelhas é atacada por doença ou por pragas ela leva um tempo grande para morrer, cerca de 4 ou 5 meses. Quando há uma grande quantidade de abelhas mortas em 24, 48 horas, como é o caso do vídeo [da matério do G1], os sintomas são bem característicos de efeito de agrotóxicos”.

O comportamento das que sobreviveram também é outro indício. “As que sobraram estão completamente desorientadas. Provavelmente foi um agrotóxico de efeito neurológico, elas ficam correndo dentro da caixa, então isso mostra que é um tipo de agrotóxico que está fazendo efeito”, afirmou.

Um estudo realizado por pesquisadores da Unesp, de Rio Claro, e da UFSCar, de São Carlos, afirma que o uso incorreto de agrotóxicos são os responsáveis pela morte de milhares de abelhas. Neste estudo foram analisadas apiários das cidades de Araras, Rio Claro, Leme, Mogi-Mirim, Artur Nogueira e Santa Rosa de Viterbo.

“Nós observamos que 70% dos casos estavam relacionados com os defensivos agrícolas. Eles usam, por exemplo, acima do recomendado, eles usam em locais em que não deveria ser usado, eles misturam muito os produtos e toda vez que você vai fazer uma aplicação você não pode misturar o produto”, explicou o biólogo Osmar Malaspina, que integra o estudo financiado pelo Sindicato Nacional dos Produtores de Defensivos Agrícolas.

No Estado de São Paulo, poucas cidades escapam dos agrotóxicos. São mais de 500 cidades, somente nesse Estado, que diagnosticaram a presença de agrotóxicos na água. Nem mesmo São Carlos escapa. No Brasil todo, 25% das cidades estão contaminadas com ao menos um tipo de agrotóxico em suas águas.

PERIGO INVISÍVEL EM TODO LUGAR

Os agrotóxicos são produtos tóxicos nocivos para a saúde. Pesquisas desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Ministério da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz mostram que agrotóxicos podem causar várias doenças, como problemas neurológicos, motores e mentais, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, puberdade precoce, má formação fetal, aborto, doença de Parkinson, endometriose, atrofia dos testículos e câncer de variados tipos.

Os agrotóxicos se esvaem pelos rios, impregnam o solo e alcançam às águas subterrâneas. Nesse caso, rios e lagos podem entrar em contato com o produto mediante o lançamento intencional e por escoamento superficial a partir de locais onde o uso de agrotóxicos é realizado. O mesmo vale para o ar e os seres vivos que estão em volta. É possível medir o nível de contaminação dos rios pelo fato da agricultura ser a maior consumidora de água doce do mundo, chegando ao patamar de 70% de sua totalidade.

Mesmo águas subterrâneas não estão livres da contaminação desses agentes de poluição.

Resíduos de agrotóxicos foram encontrados em animais domésticos e seres humanos que utilizaram águas subterrâneas contaminadas por agrotóxicos em Campinas, São Paulo. O professor Ricardo Hirata, da equipe do CEPAS, autor da descoberta, diz que a contaminação resultou tanto de substâncias aplicadas incorretamente na plantação, como oriunda de embalagens enterradas com resíduos de defensivos agrícolas. Em ambos os casos houve a infiltração e o acesso dos agrotóxicos aos aquíferos. O uso indevido de fertilizantes também afeta as águas subterrâneas.

O apelido de perigo invisível dos agrotóxicos é porque além de não ser possível notá-lo a olho nu em um copo com água, é também porque não há diferença no gosto ao consumi-la. O mesmo é aplicado com relação ao ar, já que você não nota a presença dele, apenas respira quando ele está presente.

A questão de estar contaminada depende muito dos pontos analisados, mas não importa muito se são águas superficiais ou subterrâneas.

A REGULAMENTAÇÃO É FALHA

A portaria 2.914, do Ministério da Saúde, que trata da potabilidade da água, prevê o monitoramento de apenas 27 dos 467 agrotóxicos registrados no Brasil para o ano de 2011. Esta portaria havia sido revogada, mas seu conteúdo foi consolidado, ou seja, continuam em vigor. Entretanto, este número, hoje, é ainda maior.

Já estão licenciados para utilização mais de 2,1 mil tipos de agrotóxicos no Brasil, o que vai de contramão de Europa e EUA, que estão reduzindo sua utilização. Uma grande quantidade destas substâncias estão proibidas em vários países do mundo por serem considerados extremamente nocivos à saúde pública ou ao meio ambiente.

[Fontes pesquisadas: Toxcen, CBN, Folha, SaneamentoBasico, AlimentusConsultoria, BBC, ReporterBrasil, PorTrasDoAlimento, ACidadeOn, TratamentoDeAgua, Embrapa, EcoDebate, G1/ Imagem de Dominik Martin]