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Após declarações de representantes do governo federal envolvendo o ensino superior, uma onda de conservadorismo tem tomado conta das redes sociais. Muito se fala, porém dificilmente algum dado é apresentado para colaborar com as discussões. O discurso, mais uma vez, tem sido embasado por equívocos, os quais são alimentados pelas já conhecidas “Fake News”, cuja quantidade espalhada pelas mais diferentes redes sociais (Facebook, Whatsapp e afins) é incalculável.

Essa disseminação de informações distorcidas e sem qualquer veracidade não é por acaso. O fato de haver uma grande quantidade de informações falsas circulando, já é algo prejudicial a qualquer sociedade minimamente comprometida com a honestidade, mas, neste caso, a escalada das fake news que tem como alvo os gastos do governo com a educação, são claramente parte de um projeto de país, no qual informações sem qualquer embasamento são utilizadas para justificar as atitudes de um governo descomprometido, não somente com o ensino superior, mas inclusive com o ensino básico, o qual de acordo com o presidente seria a etapa mais importante a ser valorizada.

Como apresentado anteriormente, toda essa desinformação promovida nas redes sociais acaba por trabalhar a favor do governo, legitimando seus atos e declarações, os quais prejudicam, desvalorizam e estigmatizam o ensino superior público. Em meio a toda esta ameaça promovida pelo governo Bolsonaro contra as universidades, o ministro da educação Abraham Weintraub afirmou: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, uma clara ameaça às instituições que permitirem manifestações contrárias ao governo em seus espaços. O mesmo ministro promove o ódio contra as universidades públicas brasileiras ao afirmar que estas estão entregues à bagunça e ao colocar em dúvida a importância que as mesmas têm para o desenvolvimento do país. Weintraub também é desonesto ao generalizar e julgar os estudantes e, esquece que seu teto é de vidro, já que suas notas e frequência não eram nem um pouco exemplares quando ele cursava a graduação na USP, que também é pública e financiada com o dinheiro dos contribuintes.

Utilizar a desculpa de que existe bagunça dentro das universidades, acusando-as de balbúrdia, para reduzir o orçamento do ensino superior é uma das atitudes mais desonestas e incompatíveis com o cargo que exerce um ministro da educação. Punir determinadas instituições por conta de manifestações de cunho político se torna ainda mais absurdo quando se trata de universidades como a UnB, UFF e UFBA, que fazem parte do grupo das melhores universidades do país e tem aumentado seus indicadores de qualidade perante o ranking internacional. Para se defender da “balbúrdia” promovida pelo ministro Weintraub, foi criada uma página para divulgas as conquistas em pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Com isso, temos mais uma prova das distorções e mentiras espalhadas pelo ministro, além de constatarmos como este governo está comprometido com a desinformação.

Inicialmente, o ministro havia declarado que reduziria as verbas apenas das universidades citadas, as acusadas de balbúrdia UnB, UFF e UFBA. Porém, conforme o desenrolar da história, decidiu expandir a medida para todo o ensino superior público federal. E o que muito pouco se fala, mas que também foi decidido é que haverá cortes em todas as etapas do ensino público, inclusive do ensino básico, tão defendido nos discursos do presidente e do ministro.

Outro ponto a se considerar é que o governo alega e critica o fato de o gasto com um aluno do ensino superior ser maior do que o gasto com um aluno do ensino básico, mas não leva em consideração que isso é algo que se repete em outros países e, mesmo assim, o Brasil ainda investe menos em educação superior do que as nações desenvolvidas. Segundo o G1, o qual tomou por base dados do Inep, de 2000 a 2015, de cada R$1 gasto em educação, apenas R$0,18 foram destinados ao ensino superior.

Após todas essas decisões, as universidades já não falam em contenção de gastos, pois o orçamento que foi bloqueado é o suficiente para fazer com que muitas corram o risco de não conseguirem continuar de portas abertas. Estudantes das redes federais estão com medo, pois não há mais garantia de que consigam terminar suas graduações, mestrados, doutorados ou pós-doutorados. Os cortes, que giram em torno de 1/3, atingem de tal modo que algumas alegam que pode faltar dinheiro para as contas de água e luz.

Os ataques do ministro Weintraub e do presidente Bolsonaro tem como alvo toda a educação. O sucateamento do ensino básico e superior faz parte de um projeto de país. Um país onde a crítica e a reflexão não têm vez, onde cabeças pensantes representam um perigo e, contrariar qualquer decisão aleatória que venha do governo, seja algo encarado como uma ameaça a ser eliminada ainda no ninho. O que justifica também as recentes falas do ministro e do presidente atacando as áreas de filosofia e sociologia.

As universidades são locais de formação do pensamento crítico e de desenvolvimento científico. Se a sociedade pode contar com o desenvolvimento nas áreas das ciências humanas, biológicas e exatas, deve-se ao fato de haver um local adequado para esta produção e também às metodologias e pesquisas científicas desenvolvidas dentro desses espaços, que são as universidades. Do tratamento de um câncer ao projeto de um avião, das políticas públicas de combate à fome ao desenvolvimento de uma vacina, temos envolvidas as mentes e mãos de pesquisadores que contaram com o ambiente de pesquisa universitário.

O discurso enviesado do ministro, apoiado pelo governo Bolsonaro, é extremamente perigoso para o desenvolvimento do Brasil. Ao atacar grandes nomes da academia brasileira, como o revolucionário educador Paulo Freire, reconhecido e admirado internacionalmente, temos um exemplo claro de que estamos na contramão do desenvolvimento educacional de países que são referência no assunto, como a Finlândia, que tem um dos maiores níveis educacionais do planeta e utiliza metodologias desenvolvidas por Freire. Os métodos de Paulo Freire, que infelizmente NÃO são utilizados no Brasil, são elogiados em diversos países desenvolvidos e por professores estrangeiros. Culpá-lo pelo fracasso da educação brasileira é somente mais uma forma de mostrar como o governo Bolsonaro desconhece ou finge desconhecer o Brasil.

REGIÃO AMEAÇADA

Se há uma ameaça clara às instituições federais de ensino, há também uma ameaça crescente à nossa região, a qual deve boa parte de seu desenvolvimento ao fato de contarmos com instituições como estas há décadas. Os desdobramentos das políticas do governo comprometerão não só a educação, mas também toda uma cadeia de geração de empregos e outros setores da economia.

Em São Carlos temos a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que é um exemplo internacional no que diz respeito à área de pesquisas e inovações. Sua importância é imensurável desde que foi inaugurada em 1968. Reconhecida dentro e fora do Brasil, recentemente recebeu um prêmio internacional. A universidade, além de estudantes, precisa de um corpo de funcionários qualificados para exercer suas atividades, são funcionários de cargos administrativos, técnicos e também da categoria de professores, dentre os quais, muitos destes são docentes premiados e reconhecidos perante o meio acadêmico.

A cidade de São Carlos deve muito às universidades que possui. Tanto a USP (Universidade de São Paulo) quanto a UFSCar foram essenciais para o seu desenvolvimento e também da região. Tanto é verdade que, em 2012, São Carlos foi considerada a cidade com o maior número de doutores da América Latina quando comparada na proporção de sua população.

A quantidade de cabeças pensantes influencia o surgimento e o desenvolvimento de novas pesquisas nas mais diversas áreas de conhecimento. Descobertas importantes nascem e saem destes lugares, se tornando parte da realidade e da vida das pessoas. O desenvolvimento científico impulsiona um ciclo econômico, surgem novas demandas de trabalho e, consequentemente, uma colaboração à geração de emprego. Por conta disso, São Carlos se tornou uma grande incubadora de microempresas, além de referência também no desenvolvimento de novas tecnologias. Boa parte dos estudantes que aspiram uma vaga no ensino superior gostariam de ter uma vaga seja na USP ou na UFScar.

Considerando essas questões, futuramente pode haver uma “fuga” de empresas localizadas na região, que poderão fechar suas portas ou reduzir suas capacidades. As empresas se instalam em locais próximo às universidades mirando os profissionais qualificados e especializados, mas com a nova política educacional do governo tudo parece ameaçado.

UFSCar

A própria UFSCar terá um corte de mais de R$ 16 milhões somente no custeio da universidade, valor este que já é considerado pouco para a manutenção de uma instituição tão grande e lugar de tantas inovações. Esse valor representa 32% do valor total que a universidade recebe para esta finalidade.

Sobre investimentos, 63% do valor total foi bloqueado. Ou seja, a universidade perderá mais de R$ 2,6 milhões. A universidade está analisando como fará para manter as aulas no segundo semestre, visto que isso foi um golpe enorme em seu funcionamento.

Se antes já existia uma preocupação por parte dos alunos, agora se tornou um perigo real que a universidade não consiga manter a grade de funcionamento de suas aulas, ao menos, não dela toda.

IFSP

Até mesmo o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) não se livrou dos cortes.

O instituto foi informado que terá 21,63% de seu orçamento cortado, ou seja, deixará de receber mais de R$ 2 milhões, o que é muito quando considerado as atividades desenvolvidas por lá.

INSEGURANÇA PARA ESTUDANTES

Tais medidas causam uma enorme insegurança nos estudantes das universidades públicas, assim como em estudantes que pretendem estudar em universidades federais.

O corte atinge universidades do Brasil todo, obrigando as instituições a contingenciar os gastos com manutenção e inovação. De tal forma, não será nenhuma surpresa se as universidades reduzirem a quantidade de vagas disponíveis para os cursos que oferecem. As bolsas já estão sendo congeladas e também serão reduzidas. Também há a possibilidade de deixarem de oferecer alguns cursos. Todas essas medidas representam o maior dos retrocessos para um país como o Brasil, que necessita muito de ensino de qualidade e profissionais capacitados em todas as áreas.

Todas essas medidas, por conseguinte, conseguem desestimular o aluno, pois se não há perspectiva de formação, o jovem se sente desmotivado para continuar os estudos. Situação triste e extremamente desesperançosa para o cenário da educação pública do Brasil. Neste texto, o foco se manteve no ensino superior, mas todas as etapas do ensino público sofrerão com a política de cortes de gastos.

É inimaginável a situação caótica a qual estaremos condenados após tantos anos de sucateamento e desvalorização da educação. Este irresponsável e condenável golpe no sistema educacional brasileiro, sem dúvida, é um dos maiores que tomamos nos últimos anos.